Filme de cineasta Gabriel Afonso leva o Mingu para a tela em Tiradentes

‘Dentro do meu peito mora um cão’ estreia na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes e ressalta o potencial do cinema negro de Nova Lima na construção da identidade territorial
O curta de ficção mineiro, roteirizado e dirigido por Gabriel Afonso, integra a programação da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, encontro que marca o início do calendário audiovisual brasileiro. A exibição será no dia 25 de janeiro, domingo, às 18h, na janela “Territórios Mineiros” da mostra.
Na história, o jovem Josué tem suas noites atravessadas por uma insônia constante. Vivendo em um território marcado pela exploração minerária, rodeado por montanhas, receios e frustrações, Josué reflete incessantemente sobre os desafios do início da vida adulta enquanto precisa dormir.

O filme foi realizado com recursos do Governo Federal, repassados por meio da Lei Paulo Gustavo. Gabriel, que protagoniza o curta e dá vida a Josué, participou diretamente de todas as etapas. Para ele que tem uma atuação múltipla no audiovisual, conceber o filme foi significativo.
“Estar envolvido em todas as etapas, desde a elaboração do projeto, me fez compreender o peso e a leveza de um sonho. Dirigir um filme é transformador. Não exagero ao dizer que é um divisor de águas, um processo de cura.” – Gabriel Afonso
Ainda enquanto escrevia ‘Dentro do meu peito mora um cão’, já vislumbrava quem seriam as pessoas que trariam o filme à vida, na frente das câmeras e na equipe técnica.
Durante meses, eu “paquerei” os integrantes sem que eles soubessem. Era fundamental que as vivências e subjetividade de cada um funcionassem bem dentro do set. – Gabriel Afonso
O elenco conta com Carlos Henrique, Meibe Rodrigues, Camilla Damião, Lolø Lótus, Ana Miranda e Penellopy. A produção executiva é assinada por Gabriel Afonso, Well Mendes e Natália Amaro; direção de fotografia por Virgínia Dandara; e direção de arte por Fernanda Bittencourt. A trilha sonora conta com artistas Lau & Eu, Raphael Sales e GUI HOPE. O elenco e a equipe foram formados majoritariamente por pessoas pretas e sexualmente diversas. O filme foi produzido e realizado com o apoio da MOJA Criativa.
Ficha técnica completa
Elenco:
Gabriel Afonso
Camilla Damião
Lolø Lótus
Ana Miranda
Meibe Rodrigues
Carlos Henrique
Penellopy
Roteiro e Direção – Gabriel Afonso
1ª Ass. de Direção – Rhuama
2ª Ass. de Direção – Alícia Coura
Produção – Gabriel Afonso, Well Mendes, Natália Amaro, Mariana Reis
Produção Executiva – Gabriel Afonso, Well Mendes, Natália Amaro
Direção de Fotografia – Virgínia Dandara
Direção de Arte e Figurino – Fernanda Bitencourt
Maquiagem e Caracterização – Maria Antônia Salvo
Edição e Montagem – Renan Távora Soares
Correção de Cor e Colorização – Oliverzort
Som Direto – Pris Ita Campelo
Desenho de Som e Mixagem – Eugênio Neto
Produção Musical, Trilha Original, Masterização – GUI HOPE
Cartaz – Victor Vieira
Ilustração do Cartaz – Ana Elisa Gonçalves
Fotografia Still – Menê, Marrakash
Making Of – Ualter Nolasco
Catering – Rosemere Reis
Assistência Jurídica – Larissa Oliveira
Mais informações e futuras exibições ficam disponíveis na página do filme no Instagram.
Sobre o diretor

Gabriel Afonso é artista multidisciplinar formado em Cinema e Audiovisual pela UNA, Rádio e TV pela Newton Paiva e Produção Cultural pelo Pronatec. Atuante no audiovisual desde 2009, possui trajetória como ator com personagens de destaque nas séries televisivas, Hit Parade, Cientistas Brasileiros, Um Morro do Barulho, e as ainda inéditas, Azul Celeste, Muito Além do Play, e 1986.
Na direção, dirigiu o curta documental “Como eu me vejo em você” que integrou a Mostra de Filmes do Memorial, no Memorial da Vale, e recentemente “Dentro do meu peito mora um cão”. Também esteve à frente da produção e direção de arte de curta “Impermeável Pavio Curto”, premiado como Melhor Filme na Competitiva Minas do 20° FestcurtasBH e no 51° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro; “Como se o céu fosse oceano”, Melhor Filme na Competitiva Minas no 21° FestcurtasBH; e “Diz Que É Verdade”, Melhor Filme da Competitiva Minas do 22° FestCurtasBH.
Mingu nas telas: terra mineira que não esconde nada

O bairro Mingu é cenário – e quase personagem – do filme, e leva para a tela uma relação emblemática. Um dos bairros mais antigos de Nova Lima, nasceu do processo de ocupação ligado às atividades minerárias da região.
Desenvolveu-se com residências cedidas pela mineradora para os operários, ficando entre uma mina desativada e a região de indústria. A maioria dos moradores é de baixa renda e se autodeclarou negra ou parda, conforme dados do Censo, do IBGE.
A atividade minerária tem uma presença forte na vida de quem mora na região, e molda relações econômicas e de poder desde a formação do bairro. É comum, inclusive, ver placas indicando rotas de fuga ao caminhar pelas ruas.
Na pesquisa ‘A terra jurou não esconder nada’, da arquiteta Maria Cecília Rocha, a pesquisadora entrevistou moradores e aprofundou nas dinâmicas e dicotomias desse vínculo entre a terra, a sociedade e a indústria minerária no Mingu.
“Os moradores […] relatam uma série de experiências problemáticas com a mineração, que vão desde desastres até a insegurança com a posse de vários imóveis que permanecem como propriedade da mineradora. […] Há também ocorrências a princípio silenciosas, como a silicose, doença advinda da exposição prolongada à poeira de sílica no interior da mina […]. Ao mesmo tempo, vários moradores expressam gratidão por certas conquistas que tiveram graças à mineradora: salário, a educação dos filhos, a moradia e até mesmo a alimentação. – excerto da pesquisa ‘A terra jurou não esconder nada’, de Maria Cecília Rocha
Essa relação perpassa diretamente a realidade de Gabriel, que levou para a tela o próprio olhar, sobre uma parte negligenciada de Nova Lima – um lado da cidade que resiste mesmo à margem.
Durante a escrita do roteiro, senti necessidade de que o bairro espelhasse um dos principais sentimentos do protagonista: a convicção de estar à margem. O Mingu é historicamente negligenciado pelas gestões públicas; seu surgimento se dá para atender exclusivamente às demandas da mineração, outro ponto crucial para contar essa história. Todos os caminhos me apontavam o Mingu, e não houve espaço para dúvidas. O bairro pulsava o filme. – Gabriel Afonso
A lida com a mineração é uma realidade presente na vida de muitos mineiros. Minas Gerais é o Estado com maior faturamento no setor mineral, de acordo com o Instituto Brasileiro de Mineração. Também é o estado com o maior número de processos minerários (53.398), conforme Monitor da Mineração, pesquisa da MapBiomas.
A geração de oportunidades não apaga os efeitos que são sentidos na pele por quem vivencia o extrativismo de perto. A presença do filme na janela Territórios Mineiros é uma porta para múltiplas discussões, especialmente sobre como o processo extrativista influencia socialmente e espacialmente as comunidades.
Sou de Nova Lima, a cidade com o maior IDH de Minas Gerais. Esse dado não reflete a minha experiência, a da minha família ou amigos, enquanto cidadãos. O território que eu percorro não é retratado nos comerciais de TV, muito menos numa tela de cinema. Apontar a câmera para essa realidade, que desmonta o imaginário popular da cidade, me traz a sensação legítima de honestidade. Dentre as muitas possibilidades de existir sendo mineiro, a que eu escolhi retratar coloca uma lupa sobre a angústia de estar numa cidade cujas riquezas são exploradas há tanto tempo, que parece já não restar nenhuma para você. – Gabriel Afonso
29ª Mostra de Tiradentes
O filme ganha força com a seleção para a 29ª Mostra de Tiradentes, que também marca a estreia da obra no circuito principal de festivais do audiovisual. Para Gabriel, que esteve na mostra pela primeira vez há 8 anos como público, a estreia é a realização de um sonho.
Aquela experiência imersiva de uma cidade inteira respirando arte me impactou profundamente. A Mostra é de grande relevância e inaugura o calendário do audiovisual brasileiro, influenciando muito do que será visto no circuito de festivais ao longo do ano. Ter a oportunidade de estrear o filme na 29ª edição da Mostra é um presente e um sonho. – Gabriel Afonso
A programação é gratuita e acontece entre os dias 23 e 31 de janeiro de 2026, em Tiradentes, Minas Gerais. As informações estão disponíveis no site.
